Uma Taça com Mônica Rodrigues
- Editora Clóe
- 17 de dez. de 2025
- 2 min de leitura
Há no cenário literário contemporâneo brasileiro uma inegável tendência às narrativas em primeira pessoa, à centralidade da autoria, à, assim chamada, auto-ficção.
Com todos os seus diferentes matizes, esta tendência tem criado nichos de produção e consumo literários bastante novos em nossa literatura. Existe hoje, para quem quiser ler e/ou escrever, literaturas ficcionais preta, feminista, periférica, gorda, lgbt, indígena, entre outras.
O resultado formal e histórico deste processo ainda certamente se fará perceber, mas já é impossível não considerar seu evidente estabelecimento.
O que primeiro impressiona na estreia literária de Mônica Rodrigues é o fôlego criativo para lidar com muitas destas temáticas ao mesmo tempo, no mesmo livro.
A cada conto de “Minha Taça Primeiro”, lançado pela Editora Clóe, a autora concentra em seus personagens aspectos que nos remetem aos recortes de um grupo social específico, seja a feminista de “Pequena Nota Sobre o Campeonato Paulista”; a gorda de “ABCD-Gorda”; a indígena de “Indígena (Esfarelada?)”; as lésbicas do excelente “Como Aprender Permacultura”, certamente o auge do livro.
O que diferencia o texto de Mônica é, além desta concentração temática marcante, a propriedade com a qual todos estes temas são tratados. Não se trata de uma abordagem exterior às questões narradas, mas um conjunto de relatos coesos e vivos de experiências orgânicas da narradora.
Neste limite, entre ficção e vida, é que a autora logra inventar literatura. E consegue.
De maneira bastante livre, ao ponto de seus textos seguirem linhas estilísticas nem sempre parecidas entre si, repleto de humor ácido e rasgante, o livro é um compêndio de situações inusitadas tratadas com a fluidez de uma boa contadora de histórias.
Outro aspecto que se destaca no trabalho é a maneira como Mônica trata o erotismo, sempre a partir do ponto de vista feminino, sem pudores moralistas, colocando-o como elemento basilar de sua literatura. O erotismo aqui não está só, mas integra as características fundamentais dos personagens e estrutura uma forma própria de narrativa, de construção das histórias. É pelo erótico que muitas vezes os conflitos narrativos se articulam.
Em suas falas públicas, nos lançamentos do livro, Mônica tem afirmado a importância da autoria feminina como meio em si mesmo de manifestação política. Quando aliado a isto temos um bom conjunto de histórias, a literatura mostra o quanto pode ser política, de fato, também.
Carlos André
dez/25




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