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Beth Brait em Convulsão

Beth Brait, em Convulsões, faz tremer as correntes da linguagem, desafiando-nos a transbordar os limites da palavra — quiçá, os de nós próprios.

A cena da poesia na capital paulista, pequenina porém existente/resistente, por vezes tende a defini-la como “surrealista”. Ela ouve e responde com um sorrisinho travesso:

— É mesmo? Você acha?

Mesmo sabendo que essa série de dez poemas faz parte de reflexões do ano do centenário do Manifesto Surrealista de André Breton, não colocaria Beth Brait na caixinha do Surrealismo. Penso, e sinto que sua obra dá um passo além.


"(...) Minhas auréolas consomem todos os watts de uma / geringonça pré-industrial / como eu / que sou movida / a manivela."


A liberdade artística dessa poeta, seu flerte com o onírico, desvendando objetos ou os ressignificando, revela um inconsciente/consciente profundo, indissociável de seu existir no mundo. Há nela um domínio pleno da linguagem, um saber de seus mecanismos mínimos.


"(...)Me equilibro sobre o parapeito da janela escancarada / vasculhando o nada / corto meus pulsos com lascas de ferrinhos / esfumaçados de ferrugem. / Grafito pálpebras nas árvores daquele beco / onde nos lambíamos / e me esfrego nas bocas de lobo do baixo Augusta / taturana tatuada nas nódoas dos muros do Araçá."


Brinca com os acontecimentos poéticos, subvertendo-os; veste-os como atores a seus personagens e figurinos. Reina na imanência, revelando a beleza do ordinário e oferecendo palco para ele.


"alertas sobre incêndio no cerrado/ e meus dedos tortos afagam a calmaria caliente / antiaderente da panela nova / (presente de aniversário do filho) / - mas qual mistério move um filho a presentear/ sua mãe com uma panela antiaderente?"


Experimenta a linguagem em seu limite. Há um quê clariceano nesse ir até a borda da palavra e transbordá-la.


Oscar Wilde já dizia:

— Definir é limitar.


Beth Brait é inclassificável.


Mas nós, com nossa sanha de controle, cartesianos que somos, tentamos aprisionar o que vemos nos limites do que já conhecemos, concedendo pouquíssimo espaço aos espasmos, à catarse, às convulsões possíveis da experiência estética.


Roger Willian

 
 
 

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